segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O vestido de renda rosa...



A dona dessa frase é a minha querida mãe Maria Delfina, mulher de fibra, guerreira, empresária nata que exerce seu ofício com elegância e carinho para com suas freguesas e seus fregueses que se tornam fiéis cativados pela competência e perfeição no trabalho solicitado.
Uma vez ela me disse que queria ser pianista, não realizou esse sonho, mas sabe customizá-lo em seu ateliê de costura onde transforma as notas tão sonhadas em pontos de costura.
Ela é riquíssima em sua simplicidade, caminha com conhecimento de causa mesmo quando diz  não saber ou não conseguir fazer o que é pedido. Usa suas mãos feito duas varinhas mágicas tal como as fadas-madrinhas da Cinderela usava as suas para transformá-la em princesa.
O que mais me emociona são as lembranças das festas que aconteciam na nossa Paróquia, principalmente das procissões quando íamos, os 4 com roupas novas e lindas tecidas por ela....casacos de feltro azul, vestido verde com jabô de renda branca, eita saudade boa. E o legal era, que hoje observando a moda daquela época, percebo que ela era muito antenada sempre tentando acompanhar as tendências....saia de piquê na cor azul marinho, com botões detalhando e cintura alta com blusa florida, estampada em vários tons de azul...eu devia ficar muito elegante!
Agora o vestido que mais me marcou foi um cor de rosa, ele era lindo, de renda, um decote muito discreto quadrado com alças largas, afinal de contas eu só tinha 12 anos, e um laço de gorgorão abaixo do busto, lembro-me que o vesti num domingo e fui à missa. É interessante, no entanto que me lembro vagamente que estava acontecendo um evento na Paróquia, na verdade aconteceria no período da tarde e também não sei o motivo minha mãe não permitiu que eu fosse, "coisas de mãe", principalmente da minha que se via obrigada a filtrar os eventos que qualquer um de nós queria participar. Não era fácil ser mãe de quatro adolescentes, sendo três meninas.
Meu pai, na época era caminhoneiro, saia de São Paulo rumo ao Nordeste e lá permanecia até aparecer alguma carga para voltar à São Paulo. Imagina a responsabilidade que ela carregava nos ombros, cuidar da casa e de quatro filhos que deveriam estar vivos e íntegros até o regresso do pai. Uma heroína. Um herói.
Não há como não se emocionar ao lembrar desse tempo! Difíceis, mas tão engrandecedores e inesquecíveis. Nossas vidas se dividiam em idas à escola, à igreja e à casa das tias aos domingos, sempre a pé. A nossa mãe fazia questão que estivéssemos sempre muito bem vestidinhos e íamos todos juntos criando e vivendo com tanta verdade histórias de princesas, anões e tantos outros personagens que percorrem a trajetória de tantos de nós. Tinha até um castelo de verdade. Acreditam? Está lá, até hoje, um tanto desfigurado, mas lá imponente no seu ser que maquiagem nenhuma altera.
Várias são as músicas que marcaram essa época, mas uma em especial me leva àquele domingo enfeitado pelo meu vestido rosa: "Sentado à beira do caminho" - interpretada pelo Erasmo Carlos, até hoje ao ouvi-la me sinto vestida com aquele vestido rosa, numa manhã de domingo e saio com meus 12 anos encantando a todos, pois mesmo menina ele já adornava um corpo de mulher.
E assim segue a senhora dona dessa frase encantando a todos que a conhecem, encantadora e cada vez mais linda ela cuida de todos nós mantendo-se altiva em seus quase 78 anos sempre ensinando que viver é mais importante do que tudo, principalmente quando teimamos em não enxergar a importância dessa dádiva divina, que é o dom de viver.
Simples assim.