terça-feira, 15 de outubro de 2013

"Crianças, vou dar um recado, tirem os cabelos das orelhas"

Tem uma pracinha aqui perto de casa, quer dizer, não tão perto , mas próxima o suficiente para ainda causar uma sensação de estar num tempo que não te pertence mais e que há muito dista do tempo atual.

Tive uma infância normal, somos em quatro irmãos e após vivermos o início das nossas vidas num lugar pequeno,  nos vimos morando num quintal enorme com terra vermelha que nos possibilitava acesso fácil para brincar na rua que ainda não era pavimentada.
Meus pais, muito jovens ainda, compraram esse terreno e eles mesmos na ânsia de sair do aluguel construíram quatro cômodos, verdadeiros arquitetos e engenheiros formados pela necessidade, aliás como tantos outros na mesma época.

Enquanto minha mãe se entregava às costuras diuturnamente, nós quatro desbravávamos aquele "mundo, vasto mundo..." que se apresentava diante de nossos olhinhos famintos por aventuras. O terreno tem 250 metros, 22 metros, estava tomado pela construção da casa...o resto?...ah o resto era todo nosso. Era um tal de subir e descer correndo e gritando que só vendo. Era uma explosão de alegrias e fantasias.

Eu tinha 5 anos quando nos mudamos, então tivemos quase dois anos só de brincadeiras antes que chegasse o tempo de frequentar as aulas. Como já relatei, nosso pai era caminhoneiro e a minha mãe via-se sozinha cuidando de quatro crianças "que eram tão branquinhas antes de mudarem para essa casa e agora banho só com bucha para tirar o encardido", kkk. Bem, isto tudo para contar que só saí de casa sozinha,  para ir à escola.
Ah, como era encantador, tudo era novidade, eu me distraía com a maior facilidade. A professora na época, da 1ª série, escola de madeira verde, chamava-se dona Teresa, uma chata, vendo que eu não aprendia logo tratou de me deixar de lado, um erro cruel e discriminatório, me marcou da pior maneira possível, não recomendo tal prática. Nem preciso contar o resultado, como não sabia nada, levei bomba!

Na verdade minha mãe descobriu nas férias de julho que eu não sabia ler e ela me alfabetizou, a dona Maria Delfina Palmieri dos Prazeres, sim ela foi minha primeira professora, que além de  me ensinar a andar, falar,  também ensinou-me a ler e a escrever...."que letra é essa Marly?....não é possível, essa menina ainda não sabe ler?" Coitada da minha mãe e de mim que fui ao oftalmologista e como não conhecia as "letras"  e mesmo ela o avisando que eu não sabia ler, a criatura receitou óculos.

Bem, lá fui eu no ano de 1965,recomeçar na escola verde, na pracinha, repetente, certo? Affff. Na verdade foi essa a minha primeira experiência viva.
Eu e a espoleta da minha irmã Marlene Palmieri dos Prazeres, juntinhas, na mesma sala, eu "antinha", ela inteligentíssima, articulada, sapeca! A professora chamava-se Dona Elza Fernandes, baixinha, bonita e muito competente. Com ela aprendi a escrever com uma caligrafia bonita e a ler, por isto, ela sim, marcou positivamente a minha vida. Até hoje nos encontramos.
Ela tinha uma didática interessante: "atenção crianças vou dar um recado, tirem os cabelos das orelhas, ",kkk.
E o ditado? "Dois dedos para o parágrafo, pule duas linhas"...."São Paulo......., nome da escola e logo abaixo o seu nome".

Com a dona Elza desencantei e deslanchei. Gostaria muito que ela me visse hoje e lesse os meus escritos, a sua opinião seria de muita valia.

As professoras que me marcaram além dela, foram: dona Dáfine, quando participo da missa na Igreja no bairro da Lapa a encontro com a Dona Iris, sua irmã. Ela era casada e não tinha filhos...nossa, como podia naquela época, alguém não ter filhos? Ao contrário da Dona Maria Luiza que estava grávida de 08 meses e saiu de licença pois não podia dirigir mais por conta do estado interessante. Gente tudo isto na década de 60, quando nada disso era "normal". Tinha também da Dona Maysa, alta, loira, linda, ela foi professora do meu irmão, o Mauro. O filho dela tinha o sangue azul. Sangue azul? Ah, então ele era um príncipe, não era? Quanta fantasia, quantos anseios, medos, quantas derrotas, vitórias numa época em que a minha história mudava de rumo e ganhava novos personagens que ainda hoje carregam parte de mim, pedaços formatados segundo as suas visões que detém meu DNA e parte do que sou e estou.

Essas mulheres me formataram com suas grandezas e infinitas sabedorias e conquistaram o meu respeito, diante de quem eu me envergo humildemente, pois com toda certeza, assim como a minha mãe, todas ainda tem muito a me ensinar.

Que Deus as abençoe e o governo as respeite, principalmente elas que devem sobreviver com salários que em nada representam a dignidade com que abraçaram essa missão de formar cidadãos.

Justiça e paz é o que desejo a todos e todas que seguem seus mestres na arte de ensinar e que vocês consigam deixar memórias em seus alunos feito estas e tantas outras mais que ainda habitam na minha história.

Simples assim.