terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dia da Consciência Negra.."Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Em sangue a se banhar."

O poeta Castro Alves relata os horrores que palavras nenhuma dão conta de retratar, são apenas vagas imagens a desfilar em nossa imaginação corroendo nossas inexistentes lembranças e nossas feridas que jamais cicatrizarão.

Só podemos questionar tamanha dor usando as palavras do poeta 'chorando' um tempo que não deve apagar a magnitude assustadora de "tanto horror perante os céus?!"

E depois ainda tem quem pergunte o porque do Dia da Consciência Negra, é necessário, é preciso não comemorar, nem celebrar, mas sim relembrar a saga de um povo que levou muito tempo para conscientizar-se de que tinha e tem direitos, não os dados por uma sociedade que o faz a fim de aplacar a culpa, mas direitos que são inegáveis e inalienáveis a todo ser humano.

O direito a dignidade e a liberdade.

Simples assim.


Navio Negreiro, Castro Alves

IV
[...]    
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar... 
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs! 
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais... 
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri! 
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..." 
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
          Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
          E ri-se Satanás!...  [...]