segunda-feira, 31 de março de 2014

A visão da menina marcou a mulher.

Em 31 de março de 1964 eu tinha apenas 7 anos de vida. Havíamos mudado para a nossa nova casa, que fora construída pelos meus pais, há apenas 2 anos e eu, minhas irmãs e meu irmão ainda estávamos deslumbrados com o 'mundo, vasto mundo' que herdáramos com essa mudança.

Bem, em março eu já estava em pleno ano letivo e não tinha o menor conhecimento e consciência sobre o regime e a gravidade do que acontecia e aconteceria em nosso País pelos próximos 20 e poucos anos e muitos outros também.

Devo lembrar que a minha família era muito pobre e só tínhamos um rádio que ficava em cima do "guarda-comida" no canto do pequeno espaço, sem janelas, destinado a cozinha.A única lembrança que tenho deste era as horrorosas transmissões dos jogos nas tardes dos domingos.Afff, como eu destestava aquilo. E nem era aquele programa de domingo que hoje nos faz lembrar que o final de semana acabou, kkkkkkkk.

As lembranças que tenho daquela época são poucas e só tiveram nexo quando anos mais tarde, bem mais tarde tomei conhecimento do que elas representavam. O que vem em minhas memórias são cartazes com fotos, logicamente, em preto e branco de homens e mulheres 'chamados de terroristas'. Eu não sabia o que significava mas sabia que deveria temê-los afinal, eram procurados e só bandidos eram procurados. Certo? Quem eram, o que os levou a esse ponto ainda estou tentando entender, porque compreender tais atrocidades acho que nunca será possível.

Lembro-me também de presenciar uma conversa entre a minha mãe e uma vizinha, a dona Clarinda, assustada elas chegaram a seguinte conclusão...- minha Nossa Senhora, o negócio e encher a barriga da criançada assim se a 'gente' morrer, morre todo mundo de barriga cheia.- parece brincadeira, mas elas estavam muito assustadas.

Outra figura assustadora era o bicho que representava um outro inimigo chamado Inflação, 'capaz' - eu lá sabia o que era aquilo, só sei que tinha muito medo, muito medo, esses monstros comiam alguma coisa que eu não conseguia entender.

Eu não tinha tempo para analisar o que acontecia, vivia de casa para a escola e da escola para casa preocupando-me apenas com o tipo de brincadeira que ia bolar com meus irmãos.Era tempo de ser criança, só criança, apesar de saber que também éramos todos vítimas dos desmandos e de um poder déspota.

Quantas histórias paralelas aconteceram à essas recordações de uma menina simples, completamente alienada que cresceu e foi escolarizada em plena ditadura militar.
Era tão 'tonta' que adorava Educação Moral e Cívica, depois OSPB, que deu um certo brilho à EMC pois foi a única alteração no currículo.....anos depois descubro que essas disciplinas me fascinavam pois eu já tinha sede de entender como tudo aquilo (o estado) era formado e gerenciado...apenas a minha colcha de 'patchwork' daquela época foi tecida com os retalhos, linhas e as cores que 'eles' permitiam.

Por isso saúdo, valorizo e louvo pela democracia que hoje gozamos e com certeza não é a ideal, continua prisioneira de uma política econômica deficitária com brutal e desavergonhada distribuição de riquezas e outras vergonhas tamanhas....mas é democracia e ainda podemos exercer o nosso direito político através das urnas e de escolhas sábias voltadas para uma nação que tem tudo para ser gigante e provedora de si mesma.

Ainda estamos aprendendo e talvez demore muito para termos um país onde a liberdade e a igualdade possam, enfim, caminhar juntas justificando a fraternidade que nos leva a velar e a cuidar para que todos possam ser felizes e todos, são todos.

Simples assim.